Short Stories

Estórias soltas escritas à pressa entre destinos

Friday, December 02, 2005

Felpudo por dentro

Aí vem ela.
Vem formosa e não segura, como dizia um poeta qualquer dos meus tempos de escola.
Espero. Só mais um pouco.
Ela vem vestida de preto, quase uma fotografia tirada da Vogue.
Traz uns sapatos parecidos com os que vi na montra da Hush Puppies e uma mala saída da ultima colecção Outono/Inverno da Burberry's.
Quem me dera ter uma igual...
Para ti não há crise, não é minha putazinha? Deve ter sido o teu marido cinquentão (na andropausa) que ta comprou.
Há cabras com sorte neste mundo...
O momento certo está a chegar. Está quase mesmo por baixo de mim, a caminhar aos saltinhos para não sujar os sapatinhos com a lama.
O momento da estocada final aproxima-se. Lanço-me como um condor sobre uma lebre incauta.
"Oh flor, dá pra pôr?!", grito eu.
Ela cora, faz-se desapercebida e segue o seu caminho.
Por cima de mim, os 2 carpinteiros riem-se, mas eles pouco me importam.
O que me interessa está lá em baixo.
Jaime (até o nome dele é bonito), o novo servente.
Ele parou de atirar as suas vigorosas pázadas de areia para a betoneira e fez-me aquele sorriso cúmplice que me põe as pernas a tremer.
Talvez um dia possa ser sincero com ele. Talvez um dia possa sair do armário (descer do andaime é mais apropriado, não?).
Talvez um dia possa ser eu o destinatário das suas "pázadas".

Mas até lá resta-me sonhar.

Sonhar e o sorriso dele.